PIPO, FILHOS E LIBERDADE

 

JARDIM

Pipo foi “batizado” logo que chegou, transformando em extraordinária uma tarde habitual das meninas. Nena foi a primeira a avistá-lo, o que significou sua sobrevivência, já que numa casa com dois gatos, um pequeno pássaro transforma-se rapidamente em sobremesa. 

Popó, é como Nena nos seus quase dois anos chama toda ave que encontra, ela gritava e apontava para debaixo da estante da cozinha. Ceci, já com quase oito, astuta que só, percebeu a aflição da irmã e correu para ver o que se passava. Pipo, estava assustado e visivelmente machucado nas patas e em uma das asas, mal conseguia ficar de pé. Ceci conseguiu pegá-lo, afastando-o da curiosidade dos gatos, que já se aproximavam. Ela improvisou uma casinha numa garrafa plástica cortada, deu-lhe água e mamão, sob o olhar atento de Nena.

Quatro anos antes, morávamos em uma casa e Ceci encontrou um outro pássaro, bem pequenino caído no jardim, muito debilitado, possivelmente de um dos ninhos de uma árvore próxima. Como não tínhamos onde colocá-lo e já criávamos um dos gatos, compramos uma gaiola. Tentamos dar água e comida para depois soltá-lo mas ele não resistiu, foi a primeira experiência de Ceci com a morte. Fizemos o enterro no jardim. Não tínhamos o que fazer com a gaiola, dessa forma customizamos com algumas fitas coloridas, laços, e pássaros de madeira. Uma forma de recordação.

No encontro com Pipo, Ceci não lembrou da gaiola, já tinha improvisado uma “caminha” na garrafa plástica, para ela assim ele já estava protegido. Percebemos que com a pata machucada e sem conseguir voar seria presa fácil para os gatos, lembramos da gaiola e o colocamos lá, com água a disposição, penduramos na janela do quarto das meninas. Pipo, diferente do primeiro pássaro mostrava-se forte e mais disposto.

Ceci e Nena entenderam a necessidade da gaiola e trataram de enfeitá-la ainda mais, até pintando as grades com batons para deixá-la com menos cara de prisão. Compramos alpiste e um potinho para água, quando podia Ceci sempre o acariciava, dava comida direto na boca e ele ficava tranquilo em suas mãos, Nena observava tudo.

Com os dias Pipo foi melhorando, tentava saídas da gaiola e já piava, colocando a cabeça entre as grades, o que o deixou com a papada vermelha devido os batons de Ceci. Depois de quatro dias, ele já ensaiava pequenos vôos, o tirávamos da gaiola, soltávamos no quarto e observávamos. Não voava tão alto e ainda se atrapalhava para pousar, percebemos que a patinha não estava firme. Dessa forma precisava de mais um tempo de cuidados.

Depois de uma semana ele voou longamente por todo o quarto e foi em direção da janela, mas não saiu. Devido a altura do prédio conversamos com Ceci que o levaríamos com a gaiola para o nível do chão e o soltaríamos, para ele tentar voar sem perigo, mas ela não aceitou. Achou que se ele não saiu era porque não queria ir embora. Não quis participar dessa “soltura” e mal quis se despedir, com os olhos marejados.

Desci com Nena e curiosamente quando soltamos Pipo em ambiente aberto ele não conseguiu voar, somente caminhava de forma cambaleante. Seria devorado facilmente por gatos ou até por ratos. Trouxemos então ele de volta para casa, Ceci enxugou as lágrimas e o recebeu com carinho. No mesmo dia, a tarde, Ceci o soltou no quarto, ele voou livremente e saiu pela janela em direção de uma árvore. Ela olhou pela janela, surpresa, mas feliz. Orgulhosa, avisou para todos nós.

Na manhã do dia seguinte, entrando no prédio, ouvi um piado igual ao de Pipo, olhei ao redor e avistei um pássaro parecido. Ele voou para dentro do prédio e pude ver de perto, a papada vermelha manchada do batom de Ceci, demonstrava que era ele, andou na mureta de madeira, uma das patas ainda em falso, mas voou novamente, retornando para a árvore. Cecília ficou em êxtase quando contei a ela. Tentamos outras vezes encontrá-lo, mas nada.

Hoje completa uma semana que Ceci foi passar o carnaval viajando com o avô, falei com ela pela manhã, felicíssima com as andanças, volta logo mais.

Por César Fernando de Oliveira

(cineasta e pai de um aluna da Girassol)

 

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